Pássaros atraem olhos de investidores

3 de fevereiro de 2012

admin

Gerais

Passear na floresta, com binóculo, máquina fotográfica, caderno e lápis na mão para descobrir que passarinho é aquele, cantando lá em cima na árvore. Essa modalidade de turismo, nascida no início do século XX na Inglaterra, cresce no Brasil, atrai turistas estrangeiros e brasileiros e estimula novos negócios.

É difícil estimar o impacto dessa atividade no país, mas segundo a Embratur, dos 5,1 milhões de turistas que o Brasil recebeu em 2010, 27% vieram fazer passeios com foco em “natureza, ecoturismo ou aventura”. Essa fatia é maior do que a parcela de turismo de negócios e eventos, de 23%. A região do Pantanal, que se espalha pelo Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, já é conhecida por atrair turistas em busca da fauna e da flora locais. Em Bonito (MS), por exemplo, há cerca de 50 locais para observar aves. Agora, o interesse por esse tipo de turista, em geral, educado e de alta renda, cresce também em São Paulo.

A empresária Mônica Simonsen usa a fazenda herdada do avô materno Cícero da Silva Prado, em São Bento do Sapucaí, na região de Campos do Jordão (SP), para abrir trilhas para o turismo de observação de pássaros. “Temos 580 alqueires paulistas [cerca de 1400 hectares] para fazer esse tipo de turismo. Já temos uma trilha pronta e mais duas em estudo”, diz Mônica, neta do economista e industrial Roberto Simonsen, falecido em 1945, um ano antes da neta nascer.

Mônica Simonsen já fatura mais com turismo do que vendendo madeira

Mônica passou boa parte da infância entre as montanhas de Campos do Jordão e herdou do avô materno terras na região. Por anos a fio, a área foi usada para plantar pinus e eucalipto, cuja madeira abastecia a Companhia de Papel e Celulose Cícero Prado em Pindamonhangaba, vendida em 1986. A área atual é formada por seis fazendas contíguas e pertence à Santa Judith Empreendimentos Ltda., empresa na qual Mônica é sócia de seu irmão Eduardo Simonsen Filho.

Mônica assumiu as fazendas no início dos anos 1990 e decidiu usar parte da área, cerca de 10 alqueires, para receber turistas dispostos a pescar. O restaurante dentro do Ecoparque Pesca na Montanha é considerado o melhor do país para se comer truta de montanha. “Estou ao lado da Pedra do Baú. A dois quilômetros dela, coloquei a criação de trutas, mais ou menos em 1994″, lembra. Seu filho, então com 14 anos, montou uma banquinha do lado de fora da porteira da fazenda e acenava para os carros na estrada, convidando-os a conhecer o lago das trutas.

Tucanos e corujas: São Paulo entra na rota do turismo de observação de aves

Ela consegue faturar entre R$ 700 mil e R$ 800 mil por ano com o Ecoparque, onde também se pode cavalgar, andar de bicicleta e caminhar em esteiras de madeira e cordas suspensas entre árvores. O faturamento é maior do que a venda da madeira, que Mônica ainda mantém e cuja receita gira em torno de R$ 150 mil. Nos últimos dois anos, Mônica investiu R$ 200 mil no Ecoparque, para melhorar a estrutura, e agora aposta nos pássaros para atrair mais turistas.

“No Ecoparque temos cerca de 60 espécies. O cabecinha marrom, que é raro, já foi avistado”, diz Mônica, que está organizando a nova atividade com a ajuda da professora de Biologia Adriana Prestes e dois biólogos. Já foram catalogadas na região a garça cinza, a maria faceira, a gralha azul; corujas; gaviões e falcões.

“O projeto da Mônica [de turismo de observação de pássaros] veio a calhar com meu projeto. O Projeto Jataiú, de soltura de aves”, diz a professora Adriana. Ela conta que no Estado de São Paulo há 17 áreas desse tipo, onde pássaros, depois de catalogados e eventualmente tratados, se feridos ou doentes, podem voltar à natureza. “Temos um centro em Lorena [SP], de triagem. Nosso centro é especializado em aves de rapina: urubus, corujas, gaviões e falcões”, diz a professora, que trabalha com biólogos e alunos da Universidade de Lorena. Adriana e Mônica planejam integrar atividades de turismo, conservação da biodiversidade, educação de crianças e formação técnico-científica. A área do Ecoparque está sendo incorporada oficialmente ao Projeto Jataiú junto ao Ibama, que deverá liberar uma licença.

“Quando tivermos a licença na mão, será a maior área de soltura de aves do Estado de São Paulo”, diz a professora. “Já temos licença para soltar três gaviões e queremos para a gralha azul”, diz Mônica, que recebe entre 200 e 300 turistas a cada fim de semana no Ecoparque. Nas férias escolares de julho de 2010, foram 5 mil pessoas. Esse número, espera a empresária, deve crescer com as trilhas para observar pássaros que ela está abrindo.

O plano de Mônica em investir no turismo de observação de pássaros não é um caso isolado. Municípios do litoral paulista como São Sebastião, Ilha Bela e Caraguatatuba vêm se preparando para atrair esse tipo de turista, seguindo o exemplo de Ubatuba, considerada uma referência no país.

Em Ubatuba já foram identificadas mais de 500 espécies e seus trechos de Mata Atlântica são visitados com frequência por ingleses, dinamarqueses, noruegueses, italianos e franceses. “Americanos também vêm”, diz Carlos Rizzo, secretário do Meio Ambiente de Ubatuba. “Nos anos 90, os turistas estrangeiros iam mais para o Pantanal, que tinha estrutura, mas eles querem conhecer a mata Atlântica”, diz Rizzo, que foi o primeiro guia para observadores de pássaros da cidade, em 2001. Hoje há 30 – desde crianças de 12 anos de idade a senhores de 69.

Em 2005 a prefeitura começou a organizar esse tipo de turismo na cidade. Foram envolvidos hotéis, escolas públicas e privadas e até a polícia local, que estranhava ver “aquela gente embrenhando-se na mata”, diz Rizzo. Deu certo. Em 2000, o turista que ia a Ubatuba dormia uma noite na cidade. Em 2010, o número de noites ficou entre uma e quatro.

Rizzo diz que a melhor temporada para ver as aves na mata é de agosto a novembro, quando as aves estão mais bonitas, preparando-se para a reprodução. “O turista estrangeiro vem de maio a novembro, justamente a nossa baixa temporada”, diz Rizzo. O perfil é interessante pois, em geral, é educado e de alto poder aquisitivo e, quando sai à noite, busca bons restaurantes.

A profissionalização desse tipo de lazer no Brasil está estimulando a formação de grupos – como o da Associação Brasileira de Observadores de Pássaros, que já foi criado na internet. “E começa a surgir a necessidade de darmos selos para oficializar as listas de pássaros identificados”, diz Rizzo. Em termos de evolução para criar-se um mercado organizado para explorar o turismo de observação de pássaros, Rizzo é pragmático: “Até hoje estávamos andando na horizontal. Hoje estamos começando a subir o primeiro degrau”.

Via:  Jornal Valor Econômico

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